TIPOLOGIAS DE PERSONALIDADE A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO SOCIOEMOCIONAL
José Henrique Porto

“Quando me aceito como sou, posso então mudar. ”
(Carl Rogers)

Os desafios do século XXI são vastos e a necessidade de transformação no universo escolar é premente. Diante de uma infinidade de dados disponíveis ao clique de um celular o que importa é saber o que importa e o que importa verdadeiramente é se importar. Acredito que mais do que as funções cognitivas é função da escola também promover o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Uma ferramenta salutar que pode ter impacto significativo no florescer deste novo campo da educação são as Tipologias de Personalidade.

A busca por padrões recorrentes que possam facilitar a compreensão dos fenômenos a nossa volta é a base da construção de todo o saber humano, desde o florescer da nossa espécie, quando éramos caçadores e coletores de alimentos, até a atualidade, quando a ciência avança sobre o universo da engenharia genética e microfísica, procuramos identificar padrões e inferir regras gerais que possam facilitar as nossas escolhas e ações no mundo.

Em Biologia, por exemplo, no estudo dos mais variados organismos vivos se recorre aos padrões classificatórios. As florestas equatoriais são definidas a partir das seguintes características: densas, latifoliadas, úmidas e ricas em biodiversidade. Este mesmo conceito vale para a classificação da Floresta Amazônica, Floresta do Congo e Floresta da Indonésia. Obviamente se avaliarmos de perto estas três florestas apresentam uma biota bem diversa uma da outra, mas as três compartilham este mesmo padrão que permite aos ecólogos compreender a dinâmica destes ecossistemas e reproduzir estratégias de desenvolvimento sustentável dentro destas três regiões.

O mesmo acontece quando se trata da personalidade humana. Desde a Antiguidade a reflexão sobre um possível padrão no que diz respeito às características mentais, emocionais e comportamentais dos seres humanos chamam a atenção dos intelectuais das mais variadas épocas. Na Grécia Clássica, Hipócrates, considerado o pai da medicina, foi um dos primeiros a elaborar uma teoria sobre o tema. Na perspectiva do pensador grego, sustentado no estudo dos quatro elementos de Empédocles, as pessoas se dividem em 4 tipos de temperamentos: sanguíneo (expansivo, otimista, irritável e impulsivo); fleumático (sonhador, dócil, acomodado e passivo); colérico (ambicioso, dominador, autoritário e explosivo); e melancólico (reflexivo, teórico, pessimista e solitário)

Na contemporaneidade o trabalho mais famoso neste sentido foi de Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica. Segundo Jung, os seres humanos incialmente dividem-se entre extrovertidos e introvertidos, que constituem diferentes formas a partir das quais os indivíduos recompõe a sua libido. As pessoas extrovertidas se conectam mais facilmente com o mundo externo e desta forma resgatam sua energia vital nas relações sociais e em novas experiências. As pessoas introvertidas, por sua vez, tendem a se conectar com o mundo interno e recuperar sua energia em isolamento, refugiando-se em seus próprios pensamentos e sentimentos.

Fora isso, o pensador suíço também considera em sua tipologia a forma como os indivíduos percebem o mundo. Ele categoriza as pessoas entre sensoriais e intuitivas. As sensoriais tendem a captar o mundo a sua volta por intermédio dos sentidos, orientando suas ações por uma percepção empírica que equaciona a dimensão concreta e empírica da vida. Já as intuitivas consideram também uma dimensão abstrata da existência, orientando-se por ideias, teorias, conferindo mais relevo à dimensão simbólica da vida na construção de sua visão de mundo.

Por fim, Jung estabelece também uma distinção entre as pessoas no que diz respeito à forma como elas tomam suas decisões. Em sua visão, nós nos dividimos entre racionais e emocionais neste aspecto. Indivíduos racionais são aqueles que tendem a avaliar suas ações de acordo com critérios lógicos, buscando o maior número de dados possíveis para orientar suas escolhas. Por outro lado, existem os emocionais que na maior parte das vezes tomam suas decisões orientados por um julgamento afetivo e por conta disto tendem a ser mais impulsivos.

A compreensão de uma tipologia de personalidade é sem dúvida nenhuma útil para todo profissional que trabalha na gestão de seres humanos. A tipologia junguiana, complementada com a pesquisa de duas discípulas, Myers e Briggs, deu origem ao MBTI, amplamente utilizado no mundo corporativo em departamentos de Recursos Humanos. Dentro das empresas, esta tipologia orienta desde processo de recrutamento até a formação de equipes, servindo para conferir maior precisão às ações das companhias que a utilizam.

Em minha perspectiva, a mesma eficácia poderia ser alcançada se as tipologias de personalidade passassem a fazer parte da formação dos profissionais que atuam no universo escolar. A medida que os professores entram em contato com MBTI e revisitam sua história de vida discente e docente reconhecem o quanto esta ferramenta poderia ter sido útil em seu processo de aprendizado e na elaboração de suas aulas.

Muitos professores constatam que a construção de uma sequência didática verdadeiramente inclusiva deve envolver, sempre que possível, atividades que abarquem a dimensão sensorial/intuitiva e emocional/racional. Desta forma, se aumenta consideravelmente o engajamento da turma no processo de ensino-aprendizagem.

Não raro, os educadores reconhecem também a importância do MBTI na orientação do processo de individuação pessoal e dos seus alunos. Segundo Jung, para podermos amadurecer psiquicamente precisamos equilibrar todas as nossas funções (introspecção/extroversão; intuição/sensorial; racional/emocional). Conhecer seu tipo e de seus alunos, bem como suas funções dominantes e inferiores, permite ao professor desenvolver estratégias que contribuam para o florescer de uma vida psicológica mais saudável.



José Henrique Porto

José Henrique Porto, formado em História pela USP, especialista em Filosofia da Educação pela PUC-SP, certificado pelo "Enneagram Professional Training Program" - Helen Palmer, master em PNL Sistêmica, treinador em Desenvolvimento Humano, professor de Ciências Humanas, Educomunicação, Curadoria do Conhecimento e Práticas Pedagógicas Inovadoras em instituições de ensino de educação básica e superior.

www.labhumanista.com.br (Cursos de Autoconhecimento e Práticas Pedagógicas Inovadoras para Educadores)
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