Sobre a famigerada indisciplina escolar (e as coisas que dizemos a respeito dela)

“Esse menino é terrível!”, diz um professor aqui. “Gente, cadê os pais dessas crianças?”, esbraveja outro. “Eu acho que educação vem de casa e a gente não pode fazer o papel dos pais, era só o que faltava!”, vocifera mais um. Em qualquer sala de professores, tanto das escolas públicas quanto das particulares, essa conversa é bastante comum. A impressão que temos é que a indisciplina é muito pior na escola de hoje do que durante a época em que éramos estudantes. Dentre as principais reclamações sobre disciplina estão a dificuldade dos professores em prender a atenção dos alunos e a falta de respeito por parte dos alunos para com o professor e demais funcionários da escola. As duas reclamações são bastante pertinentes e sabemos que o problema atrapalha o andamento das aulas e interfere na motivação do professor em fazer algo que demande algum tipo de inovação em sua prática. Porém, se ficarmos o tempo todo reclamando do estado das coisas sem procurarmos nos inteirar das razões pelas quais elas acontecem e, mais grave ainda, sem acreditarmos que podemos fazer algo para melhorar, nosso trabalho se torna maçante e nós nos tornamos profissionais sem paixão. E como podemos transmitir a paixão por aprender se não tivermos paixão por ensinar?

Presta atenção, menino!

Vamos à questão da falta de atenção. É impossível não notarmos que os alunos que chegam à escola hoje possuem coisas muito mais interessantes para fazer e ver em suas casas ou na casa de colegas. A tecnologia trouxe consigo um universo de infinitas possibilidades de exploração e descobertas, disponível para as crianças com apenas um toque nas telas de seus tablets. Além disso, o conhecimento, que antes tinha um lugar quase que exclusivo dentro do espaço escolar, passou a estar também prontinho para ser acessado dos smart phones. Se eu quiser saber quantos quilos pesa um bebê orca, tudo o que eu preciso ter a combinação apropriada de palavras em meu site de busca para encontrar essa informação. A pesquisa como tarefa de casa ganhou outro significado. Fazê-la é muito fácil e nada desafiador. Professor, acabei de ver no meu celular que um bebê orca pesa 200 kg. Próxima pergunta, por favor.

Portanto, para que nossos alunos se interessem por nossas aulas, é preciso, em primeiro lugar, que nossas aulas sejam mais interessantes. Isso significa que os conteúdos devem ser aproximados da realidade dos alunos, já que o acesso a eles não parte mais do professor. Cabe a nós utilizar a tecnologia a nosso favor, criando em nossa sala de aula um espaço no qual os alunos aprendam a compartilhar o que sabem, assim como a construir algo novo a partir do que sabem. Os fatos estão bastante acessíveis; resta agora ao professor mostrar como fazer algo produtivo com eles. Alunos produzindo dificilmente se comportam mal.

Educação vem de casa?

A frase acima, repetida como um mantra por professores já bastante frustrados com a questão da disciplina, nem sempre se aplica a determinados contextos. Muitas vezes o problema de falta de disciplina nem sempre se trata de má-educação. É preciso entender que o aluno que ingressa na escola ainda não sabe como se comportar no espaço escolar. Todo comportamento é adquirido. É na escola que se ensina como se comportar na escola. O espaço escolar é diferente do espaço familiar. É claro que alunos carentes de limites dentro de casa serão mais difíceis de lidar na escola; porém, muito depende da coerência e da consistência de todos os professores, desde as séries iniciais. Todos nós já trabalhamos com turmas que, por terem tido um professor mais permissivo, chegam a nossas mãos sem muitas habilidades sociais, autocontrole e postura adequados.

A verdade é que a conquista da disciplina dentro da sala de aula é um trabalho diário, árduo e cujos resultados raramente são vistos por quem o iniciou. Esse trabalho faz parte de nossa missão mais importante como professores: educar para a vida. Pouco podemos fazer em relação ao fato de nossos alunos terem pais ausentes, pais permissivos ou pais negligentes. Porém, podemos pensar no que fazer para que esses alunos também tenham uma chance de aprender na escola o que deveria ser aprendido em casa. Tarefa difícil? Sem dúvida! Mas quem escolheu a profissão de educador não estava esperando algo fácil, estava?

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