O desafio de ensinar línguas estrangeiras a adolescentes da escola regular
Juliana Tavares

Recentemente estive em uma palestra na qual o apresentador pediu aos professores que lhe dissessem algumas das características típicas de adolescentes. Dentre as muitas definições, as mais citadas foram aquelas relacionadas ao lado negativo da adolescência: falta de interesse, mau comportamento, mau humor, necessidade de contrariar o adulto, alunos desafiadores, impulsivos, etc. Isso é para mim algo que denota fortemente a forma como os professores enxergam e se sentem quando o assunto é ensinar os teens: verdade seja dita, dar aula para essa turma não é para os fracos. Sabemos que muitos adoram essa faixa etária, mas isso não é necessariamente algo que chega a cegá-los em relação às dificuldades e desafios que trabalhar com essa galerinha pode representar.
Quando falamos especificamente do ensino de línguas nas escolas regulares, os desafios se tornam ainda mais acentuados: neste contexto, o professor muitas vezes se desdobra para conseguir muito pouco. Dentre os motivos dessa dificuldade, podemos destacar:

- Desvalorização histórica das línguas estrangeiras – como já dissemos antes, ao longo da história de nossa educação, o ensino de línguas estrangeiras foi perdendo cada vez mais espaço nos currículos das escolas. Isso resultou em um paradigma definido em poucas palavras por: não se aprende inglês na escola e é preciso procurar outros lugares para aprender “direito”. Ressalto aqui que esse problema não é único do Brasil. Os EUA são também conhecidamente problemáticos quando o assunto é ensino de línguas (a diferença está no fato de que falantes de inglês, de maneira geral, não sentem grande necessidade em se comunicar em outras línguas).

- Descrédito dos pais em relação ao ensino de línguas estrangeiras na escola – obviamente, se o ensino de línguas não se apresenta relevante ou desafiador nas escolas, é de se esperar que os pais passem a procurar alternativas, matriculando seus filhos em escolas de idiomas cada vez mais cedo.

- Desvalorização das escolas em relação ao ensino de línguas estrangeiras e aos seus profissionais – é um círculo vicioso: se o ensino de línguas não é valorizado pelo sistema, ele será desvalorizado por outras instâncias também. Quer ver um exemplo? Quantas escolas você conhece possuem uma coordenação específica da área de inglês e espanhol? Quantas escolas fornecem aulas de reforço aos alunos com dificuldades no inglês e no espanhol? Quantas escolas oferecem carga horária em língua inglesa de mais de duas aulas por semana já no Ensino Fundamental I? Com exceção das que se consideram “bilíngues” ou que oferecem carga horária estendida em inglês (unicamente particulares), dá para contar nos dedos, não?

- Desinteresse dos alunos nas aulas de inglês e espanhol – deixei essa por último porque vejo o problema como uma consequência dos citados acima. Se ninguém está interessado e se ninguém acredita que é possível aprender línguas na escola, se ninguém considera línguas estrangeiras tão importantes quanto as outras disciplinas, por que os alunos iriam acreditar?

Bem, olhando novamente o que escrevi até agora, meu post está ficando cada vez mais amargo, não é? Mas essa não é minha intenção. Apenas destaquei os pontos acima para demonstrar que é possível, se mexermos em ao menos um deles, melhorar esse cenário. Se conseguirmos mexer em mais que um, creio ser bastante possível até reverter esse quadro. Vamos a algumas ações que comprovadamente funcionam (quando digo comprovadamente é porque me baseio em nossa experiência na consultoria de ensino de idiomas em escolas regulares, da educação infantil ao ensino médio):

- Alguém tem que estar no comando – o primeiro passo para um ensino de qualidade é uma boa gestão pedagógica. Um bom gestor tem a capacidade de criar um espírito de equipe, manter seus professores atualizados, estar a par do que acontece em sala de aula e ter espaço para promover formação contínua dentro da escola. Muitas vezes não temos isso em nenhuma disciplina, mas vemos que basta uma área dar início a essas práticas que as demais se interessam e se contagiam pelo espírito do crescimento profissional.

- Aumento da carga horária – nas escolas da rede privada, o aumento da carga horária das línguas estrangeiras depende exclusivamente de uma decisão interna. Essa decisão, se tomada ainda no Fundamental I, desperta o interesse dos alunos de uma maneira definitiva. Vemos que os alunos que gostam de aprender línguas no Fundamental I permanecem mais motivados com a disciplina no Fundamental II.

- Critério nas escolhas – de materiais didáticos a professores, as escolhas devem ser baseadas no perfil da escola e de seus alunos e devem estar alinhadas com os objetivos pedagógicos estabelecidos pela gestão. Muitas vezes aquele professor que possui um currículo impecável não será a pessoa mais indicada para se integrar a sua equipe, assim como aquele material de ponta repleto de recursos pode também não ser o mais adequado à carga horária alocada e muito menos ao poder aquisitivo médio de seu público.

- Participação ativa do professor – ao envolver a equipe nas escolhas, na resolução de problemas e na busca por melhores soluções, a gestão empodera o professor e aumenta a confiança dele em sua capacidade. Consequentemente, suas aulas se tornam mais interessantes porque a ele é dado o aval para se arriscar, testar hipóteses e construir com seus alunos.

- Investir no colaborativo – isso vale tanto para o desenvolvimento da equipe quanto para a forma de se abordar conteúdos em sala de aula. O trabalho colaborativo transforma a sala e faz com que os alunos vejam um significado real no que fazem com a língua.

O primeiro passo para a mudança é avaliar a situação presente. O próximo é a ação. Há várias maneiras para começar, mas é importante começar pelo possível, trabalhando com aquilo de bom que já temos. Digo isso porque geralmente aquilo que já temos é o professor, o maior bem que uma escola pode possuir. Que tal começarmos com eles?
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