O Fantasma do Aprendizado por Projetos em língua estrangeira (ou porque PBL na aula de línguas nos assombra tanto)
Juliana Tavares

Já faz um bom tempo que nós aqui da Teach-in falamos sobre PBL (Project-based Learning) e do enorme potencial desta abordagem para o ensino de língua estrangeira e para a abertura do diálogo entre o inglês e outras disciplinas nas escolas regulares. Sabemos que o caminho dos projetos funciona porque vemos acontecer em nossa realidade, ou seja, vivenciamos a experiência de implementá-lo com nossa equipe e vemos a evolução do trabalho de nossos professores ano a ano. Trabalhar com PBL em inglês e espanhol é trabalhoso, mas funciona e os resultados compensam o esforço.

PBL é uma abordagem dinâmica, que prima pelo protagonismo do aluno na sala de aula e se apoia fortemente no trabalho colaborativo entre os alunos, assim como no livre trânsito entre diferentes disciplinas, pois seu caráter multifacetado não permite que seja de outra forma. Através de projetos significativos e pertinentes, o aluno aplica os conteúdos linguísticos de forma a enxergar e vivenciar a função concreta da língua que aprende para situações do mundo real. Além disso, quando conduzido de forma correta, os projetos oferecem oportunidade para uma avaliação qualitativa e processual, já que durante todo o percurso há momentos propícios para avaliar os alunos e usar os resultados obtidos na correção da rota e não para punir ou rotular. Em resumo, PBL está em perfeita sintonia com as habilidades do século 21 e com os pilares da educação propostos por Delors (1996): aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a viver, aprender a fazer.

Olhando todas as características desse modelo, concluímos que PBL faz todo sentido para o aprendizado de línguas, já que não há restrições para a escolha do tópico (que deve partir do interesse dos alunos), envolve diversas disciplinas (algo comum para professores de língua e que se reflete fortemente no design de materiais didáticos) e usa a linguagem como ponto de partida para a pesquisa. Então, por que PBL ainda é tão complicado para as aulas de inglês? E por que nós, professores de língua estrangeira, temos tanto receio em trabalhar com essa abordagem?

Em primeiro lugar, creio que PBL abala fortemente o papel do professor na sala de aula. Como afirma Moran aqui, nesse modelo, a função do professor é amplificada e avança em direção à orientação e ao design. Para isso, porém, temos que necessariamente nos distanciar do protagonismo para ceder esse espaço ao aluno e isso envolve um desapego que nem sempre é simples!

É claro que essa questão não está apenas relacionada ao professor de línguas: a maioria dos professores ainda é muito resistente em relação a sair da frente da sala de aula para se misturar aos alunos e assumir o papel de facilitador. Eu diria até que para o professor de línguas essa tarefa é mais fácil, já que muito sobre ensino e aprendizagem de línguas se pauta na interação, no espaço para o aluno se expressar e no trabalho colaborativo – ainda assim, há muito conflito envolvido nessa transição, principalmente para o professor de escolas regulares.

Um segundo obstáculo que ajuda a tornar PBL um bicho de sete cabeças é a questão do tempo. O trabalho com projetos envolve muito mais tempo de preparação e demanda mais tempo de aula se comparado ao uso dos materiais didáticos comuns, com um cronograma baseado em unidades. Isso nos leva também ao terceiro ponto: há uma dificuldade por parte de nós, professores, em nos libertarmos do material didático. Não é minha intenção desqualificar a importância dos livros-curso, principalmente quando temos um cronograma tão enxuto para cobrir conteúdos extensos. Porém, é essencial que comecemos a olhar o material com senso crítico e que os coloquemos em seu devido lugar em nossa prática: o lugar de coadjuvante.

A ruptura com o material também é um desafio devido à necessidade que temos de seguir um conteúdo linguístico pré-estabelecido e que nem sempre é o mais adequado ou pertinente aos nossos alunos. No trabalho com PBL, a conteúdo linguístico depende do andamento do projeto e pode por vezes ser imprevisível. É preciso vasto conhecimento e familiaridade com o ensino da língua para que isso ocorra com eficácia. Quando tudo se encontra pensado e organizado em um livro, essa tarefa se torna desnecessária e o professor pode cair na famigerada zona de conforto.

Finalmente, o obstáculo mais desafiador está na dificuldade de mudarmos nosso paradigma de educação. Não podemos mais pensar em educação sem pensarmos em tecnologia, em salas de aula invertidas, em trabalho colaborativo e em metodologias ativas. E essa mudança só começa quando nos propomos a tentar e a errar, a corrigir e a analisar, a repensar e romper. Só assim podemos nos livrar dos fantasmas que nos assombram e permitir que os alunos sejam de fato os agentes e os protagonistas.

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