O “Inglês da escola” e o paradigma da insuficiência
Juliana Tavares

As frases listadas abaixo resumem o que mais comumente ouço quando converso com pais de alunos, próximos ou não, a respeito do aprendizado de inglês dentro das escolas da rede pública e particular:

“Quando ela ficar um pouco mais velha eu vou colocar no inglês porque o inglês da escola é muito fraco.”

“As crianças da turma dele são bem avançadas porque a maioria faz inglês fora.”

“Na escola não dá para aprender inglês, com aquela bagunça e aquele monte de aluno. Tem que colocar na escola de inglês mesmo.”

“Eles têm inglês, mas são duas aulas por semana. E a professora é muito fraca.”


Essas frases possuem algo em comum: todas elas refletem uma descrença no ensino de língua estrangeira nas escolas regulares. Já falamos aqui sobre os principais problemas que identificamos nas áreas de idiomas das escolas e não é nosso propósito negar a existência deles. Sabemos também que, para fazer de fato a diferença, o ensino de língua estrangeira deve ser muito bem fundamentado em formação contínua e busca por resultados.

Porém, se formos destrinchar essas frases com mais cuidado, identificamos um conjunto de crenças (ou descrenças) que formam o que vou chamar de paradigma da insuficiência: a ideia de que o inglês ensinado nas escolas nunca será bom o suficiente e precisa ser “reforçado” com a escola de idiomas. O problema com esse paradigma está no triste fato de que, não importa o que é feito na escola em prol da qualidade, ele parece perdurar com muito mais força. É como se o problema de qualidade no ensino fosse algo exclusivo das línguas estrangeiras, já que nunca ouvi ninguém dizer que vai colocar seu filho em uma “escola de história” porque a “história na escola é fraca”. Além de desqualificar o ensino de inglês, essas crenças também desqualificam o professor. Afinal de contas, se o inglês é fraco, de quem é a culpa?

Não se sabe dizer ao certo quando esse discurso começou a se espalhar, mas muita gente já pesquisou e escreveu sobre o assunto (veja referências interessantes aqui). De fato, grande parte dele foi construído devido à má qualidade do ensino em geral. Entretanto, creio que o ensino de inglês sofre um pouco mais com isso, porque saber um idioma já se configurou condição si ne qua non para a conquista do mercado de trabalho. Portanto, se “não se aprende” na escola, há de se aprender em algum lugar, pois sem inglês não se sobrevive no mercado (come se as demais disciplinas não fossem também essenciais em seu conjunto de habilidades!).

Isso nos leva a refletir um pouco mais a fundo sobre o real papel das línguas estrangeiras na escola. O que a maioria dos pais provavelmente desconhece é que a função dos idiomas na Educação é (ou ao menos deveria ser) muito mais complexa do que o proposto nas escolas de idiomas! Que dentro da escola devemos estabelecer diálogo com outras disciplinas, trabalhar com habilidades não-cognitivas, inserir a cultura dos países falantes da língua de maneira mais aprofundada, desenvolver o pensamento crítico, etc. Em outras palavras: ensinar uma língua não se resume a ensinar a falar uma língua. E é exatamente por isso que não se deve comparar o trabalho feito nas BOAS escolas de línguas com o trabalho desenvolvido dentro das escolas regulares. Ainda assim, é preciso melhorar muito o que é feito hoje. Porém, para melhorar, é preciso que haja valorização, tanto por parte dos pais, quanto por parte da própria escola como um todo (professores, direção e alunos). É preciso que a importância das línguas estrangeiras na escola pública e particular seja reconhecida, e que essas disciplinas obtenham o mesmo status das demais. Somente dessa forma poderemos caminhar rumo a um ensino de idiomas sério e de qualidade.

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