CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO DE PROFESSORES NAS ÁREAS LINGUÍSTICAS E METODOLÓGICA

Abordagem de Língua e Cultura em Ambiente Doméstico: Um Estudo de Caso

By - Bruno F. de Lima*

O presente artigo tem por objetivo relatar um caso de sala de aula em que foram abordados, de forma integrada, aspectos de língua e cultura a partir da observação do número desigual de filmes dublados em exibição em cinemas de diferentes regiões de Natal/RN. Sustentando-se numa concepção de cultura que envolve a dimensão diacrônica de tempo, a dimensão sincrônica de lugar, e a dimensão metafórica da imaginação (KRAMSCH, 1996), e ainda na ideia de que toda interação é intercultural, foi preparada uma atividade considerando o passo-a-passo da metodologia ESA (HARMER, 1997) adaptados aos objetivos da aula e ao propósito de incluir o debate cultural. Os resultados mostram que a aplicação da metodologia foi satisfatória e que os alunos tiveram bom nível de aprofundamento na análise e compreensão de fatores socioeconômicos, históricos e culturais que acompanham a oferta de filmes dublados na cidade.


1. Reflexões sobre cultura e comunicação intercultural
Há algum tempo, diversos estudiosos vêm discutindo sobre a relevância de uma abordagem a aspectos culturais em suas áreas de conhecimento. Piller (2011), que traça uma linha do tempo dos estudos sobre comunicação intercultural, aponta que esse interesse surgiu ainda nos anos de 1940, e cresceu exponencialmente a ponto de extrapolar o meio acadêmico e ser adotado pelo discurso geral. A autora pontua também que tal crescimento esteve frequentemente associado a interesses militares e comerciais.


A questão é que, quer seja por causas militares ou comerciais, o entendimento de comunicação intercultural nesses casos implica duas observações importantes: a primeira delas aponta para um conceito de cultura que é quase um sinônimo de nacionalidade, o que permite generalizações que alimentam estereótipos; a segunda associa comunicação intercultural a uma interação entre pessoas de nacionalidades ou etnias diferentes. O que está posto nessas observações é um senso de unidade nacional amarrado pela cultura, em que cultura é uma entidade de existência pressuposta, a qual as pessoas têm, ou a que pertencem. Ora, se uma nação tem uma cultura única, então, pessoas daquela nacionalidade devem interagir, comportar-se e consumir de forma idêntica.


Todavia, Piller (2011) adverte que cultura deve ser entendida não como uma entidade, mas como um processo. Se assim for, o termo será tratado a partir de uma perspectiva mais construcionista, ou seja, compreendido como algo feito e refeito por pessoas ao longo do tempo. A propósito, a dimensão de tempo no conceito de cultura também está presente numa definição proposta por Kramsch (1996), a qual costumo usar em meus trabalhos e apresentações por ter especial atenção à sala de aulas de línguas. Nessa definição, além de considerar o tempo, Kramsch (1996) aborda outras duas dimensões, quais sejam: a. a dimensão de lugar, afinal, a cultura também leva em conta a forma como um grupo reage ao clima e à geografia, o que consome dadas as condições socioeconômicas vigentes etc.; e b. a dimensão da imaginação porque, para uma sala de aula que pretende investir na compreensão de aspectos culturais atrelados à língua, não basta saber como as coisas foram ao longo do tempo ou como elas são em um determinado local. É preciso também imaginar como elas seriam se estivéssemos no lugar de nossos interlocutores, em outro grupo social. Nesses termos, a dimensão da imaginação nos ajuda a observar um fenômeno a partir da nossa perspectiva, bem como da perspectiva do outro. Dessa forma, além da tolerância (apenas) contemplativa, tem-se um exercício ativo de empatia.


Portanto, reitero, no arcabouço teórico que embasa minhas escolhas como professor, a cultura está bem longe de ser considerada um construto nacional único e abrangente. Em vez de falar em nação, prefiro trazer à baila a ideia de grupos sociais (grupos de pessoas que interagem, possuem características comuns e senso de coletividade). Assim, considerando que todos pertencemos a grupos sociais diferentes, pode-se dizer que somos atravessados por culturas diferentes, e isso nos permite afirmar que, ao menos em alguma medida, toda comunicação é uma comunicação intercultural. Em cada interação, carregamos conosco fatores ligados a gênero, orientação sexual, crenças religiosas, poder aquisitivo, status e estima social atribuídos, entre outros. A nacionalidade é, sim, um aspecto relevante, mas, ainda assim, é só um aspecto num emaranhado de características que se manifestam na(s) e pela(s) língua(gens) em uso. Espero que esses princípios teóricos sejam percebidos na atividade prática que compartilharei neste texto.


2. Um olhar sobre Natal/RN: Onde estamos? Quem somos?
Natal é a capital do Rio Grande do Norte (RN), estado localizado no Nordeste brasileiro, a região mais pobre do país, segundo o IBGE. A capital do RN tem a peculiaridade de ser, praticamente, duas cidades em uma, já que é cortada pelo imponente Rio Potengi. A zona norte da cidade, à qual se chega atravessando-se uma das pontes existentes, concentra quase 400 mil habitantes cuja renda per capita é de 0,92 salário-mínimo por mês. A área é composta por sete bairros, dentre os quais há os que se encaixariam na descrição de bairro de estigma (ARAÚJO, 2015). Segundo Araújo (2015, p. 113), bairros de estigma são áreas que concentram população de baixa renda, têm infraestrutura carente e são vistas como loci “de violência e crime”. Assim como ocorre em outras cidades brasileiras, a pobreza em Natal é concentrada em bolsões nas periferias, o que faz com que os ditos bairros de estigma também sejam verificados na zona oeste. Embora tenham recebido melhorias nos últimos anos, tais como obras de trânsito, criação de parques e praças, faculdades e um shopping center, a história dos bairros da zona norte de Natal é marcada por ondas de desenvolvimento mais ou menos intensas, a depender da agenda do governo da vez.


Já nas zonas leste e sul, estão os outros tipos de bairros classificados por Araújo (2015) como: a. bairros de status – próximos a corredores turísticos e lar da classe média formada por profissionais liberais, militares e servidores públicos; e b. bairros de elite – onde estão as famílias mais ricas da cidade, e onde se vê alto padrão arquitetônico e infraestrutura urbana. A título de comparação, temos que nos bairros de elite e status, a renda per capita varia entre 10 e 15 salários-mínimos, portanto, é consideravelmente superior àquela dos bairros de estigma. Nessas regiões, também estão algumas das escolas mais caras e os campi de universidades privadas onde se pode frequentar os cursos mais prestigiados, como Medicina e Direito.


É de suma importância frisar que as classificações acima são resultado de um somatório de fatores objetivos e subjetivos por meio dos quais é possível depreender que há desigualdade não só na distribuição de renda e na oferta de oportunidades, mas também no poder de atribuir sentidos, valores e rótulos às coisas.


3. Um modelo de abordagem da cultura em sala de aula

3.1. Breve contextualização

A atividade sobre a qual relato a seguir aconteceu nos anos de 2018 e 2019 num campus do Instituto Federal localizado no bairro Potengi , na zona norte de Natal, e nasceu da observação da realidade no entorno da escola e da escuta da queixa de muitos alunos para quem eu ministrava aulas de Língua Inglesa. Adolescentes, boa parte desses estudantes dividia seu tempo entre os estudos e atividades de lazer como praticar esportes e ir aos cinemas do shopping da vizinhança. Porém, a menos que pudessem e quisessem se deslocar para outras partes da cidade, eles teriam que assistir aos filmes de sua preferência dublados, já que essa era a única opção disponível na zona norte. Daí veio a curiosidade de investigar qual era o percentual de filmes dublados em exibição nos cinemas de outras regiões de Natal, e se os percentuais apresentavam diferenças importantes em comparação com os números da zona norte. Por critério, escolhi as salas mais frequentadas, nos três maiores shoppings centers da cidade, cada um num ponto de Natal: o Shopping Center A (SCA), localizado no bairro Potengi (zona norte); o Shopping Center B (SCB), no bairro do Tirol (zona leste); e o Shopping Center C (SCC), em Candelária (zona sul). Se aplicarmos a classificação oferecida por Araújo (2015), veremos que os referidos cinemas estão, respectivamente, em bairros de estigma, elite e status.


Vale a pena, ainda, dizer que o Shopping Center B fica num ponto estratégico da cidade, praticamente no meio do caminho entre o A e o C, e conta com grande oferta de transporte público para todas as direções.


3.2. A metodologia

A metodologia escolhida para a confecção da atividade foi a ESA – Engage-Study-Activate (HARMER, 1997). A ESA foi escolhida por ter fases bem-marcadas, porém flexíveis, podendo ser trocadas ou repetidas conforme os objetivos da aula. Justamente por causa dessa flexibilidade, foi confortável adaptá-la com foco na discussão sobre aspectos culturais para além da comunicação. As principais adaptações estão nas fases de Study, quando os alunos coletaram informações que pudessem explicar as disparidades na oferta de filmes dublados nos cinemas, e Activate, momento em que eles interpretaram seus achados e comunicaram suas hipóteses à classe.


3.3. Os alunos

Nas duas ocasiões em que a atividade foi aplicada, o público-alvo tinha características semelhantes. Vejamos abaixo:

  • grupos de estudantes com idades entre 17 e 19 anos;
  • nível de proficiência entre A2 e B2;
  • experiência prévia com intercâmbio presencial (contatos com alunos intercambistas no campus) e/ou virtual (projetos de conexão com instituições de ensino no exterior via internet).

3.4. A estrutura da atividade

Conforme já informado, a metodologia aplicada na atividade foi a ESA, mas optei por repetir as fases de Study e Activate para incluir a coleta de mais informações sobre os bairros dos shoppings mencionados e para aprofundar as análises dos estudantes. A estrutura, então, ficou assim: E-S-A-S-A. Segue apresentação detalhada de cada fase:

Warm-up questions - Engage:

  • Do like to go to the movies?
  • How often do you go to the movies?
  • What kind of movies do you like?
  • Do you prefer to watch them dubbed or subtitled in Portuguese?

Nessa fase, a interação foi professor-alunos predominantemente, mas os estudantes tiveram tempo suficiente falar de suas preferências e abordar a quantidade de filmes dublados na zona norte de Natal. A partir disso, foi encaminhada a fase seguinte.

Instruction – Study

  • In small groups, use your smartphones to visit the websites of the three biggest movie theaters in Natal. Then, see the number of sessions in each one, and check how many of them are dubbed in Portuguese.

Os resultados dessa busca foram parecidos em 2018 e 2019: no Shopping Center A, 100% dos filmes eram dublados; no B, 35%; e no C, apenas 17% . Claramente, a quantidade de filmes dublados diminuía conforme o espectador se afastava da zona norte. Coletadas as informações, a surpresa dos estudantes com a constatação era visível. Chagava a hora de compartilharem suas hipóteses.

First impressions – Activate:

  • “People ‘on the other side’ probably speak foreign languages”;
  • “They don´t mind reading subtitles”;
  • “They have more money to invest in education”.

Eis as primeiras impressões dos alunos para a disparidade no número de filmes dublados na cidade. Destaco os termos the other side, ou o outro lado, porque é uma forma um tanto desdenhosa como cidadãos de ambos os lados do Rio Potengi se referem aos moradores do lado oposto. Note-se, a partir disso, a influência que a geografia tem nos valores culturais e nos usos da linguagem. Note-se, também, que a relação mais dinheiro = acesso a educação de maior qualidade tem como pano de fundo a oposição nós x eles - comum nas relações interculturais - e estigma x status. As hipóteses dos alunos foram acolhidas, já que o fator econômico é mesmo um facilitador de acessos, mas era preciso estudar mais e tentar aprofundar a investigação. Para instigar os alunos, pedi que usassem o Google Street View em seus smartphones para caminhar pelos bairros onde estão os shoppings centers observando:

Inclusion of new variables – Study:

  • The neighborhood where the malls are located (observe the buildings, houses, schools etc.);
  • The characteristics of the malls (kinds of stores etc.);
  • The availability of means of transportation.

As informações obtidas na repetição da fase de Study foram muito interessantes:

Later impressions - Activate:

  • The neighborhoods are clearly different:
  • Shopping Center A: more houses; more public schools; lower purchasing power.
  • Shopping Center C: more apartments; more private schools; higher purchasing power.
  • Shopping Center C is the fanciest mall in the city, and people there display a higher socioeconomic status. The number of subtitled films can be one component of that status;
  • Shopping Center B is actually three malls in one. It can be simpler or fancier depending on which floor you are.
  • It´s very convenient to get to Shopping Center B from everywhere in the city, so it´s likely that some of those people who go to Shopping Center A also go there. This can explain why the percentage of dubbed films is 35%.

Conclusions:

  • Because people are different in many ways, they must consume products and services differently.
  • Some market laws must have guided the decisions regarding the offer of dubbed movies in the different theaters.


Os alunos compartilharam as impressões e conclusões acima usando seu repertório linguístico e cultural, e as paráfrases feitas preservam o que foi dito. Para além dessas observações, os alunos compartilharam sentimentos e percepções muito perspicazes. Por exemplo, vários deles disseram que não se sentem à vontade no Shopping Center C porque os olhares direcionados são de julgamento, como se eles não fizessem parte daquele espaço. Além da sensação desconfortável de deslocamento, pouca oferta de transporte público saindo da zona norte para o Shopping C é mais um impeditivo ao acesso às suas salas de cinema.


Outras percepções interessantes foram sobre o Shopping B e sua localização estratégica. Por estar numa área de grande circulação, esse shopping recebe público bastante variado, de todos os bairros de Natal. Isso, na opinião dos alunos, explicaria o percentual de filmes dublados menor do que o da zona norte, mas maior do que o da zona sul. Ademais, justamente por receber um público tão diverso, o shopping se estruturou para parecer (ou ser mesmo) três em um: no primeiro piso, há lojas mais populares, como as de eletrodomésticos e departamentos, supermercados e quiosques de serviços; no segundo piso, estão marcas um pouco mais conhecidas e a praça de alimentação; no terceiro, lojas de grife, livraria, cafés, restaurantes mais caros, teatro e cinemas. Como bem observado por um dos estudantes, “até o cheiro do terceiro piso é diferente” devido ao perfume que exala de algumas lojas.


O que se vê nas constatações e interpretações dos alunos é um misto de objetividade de dados e subjetividade de leituras. Nos olhares, na separação das lojas por piso e na quantidade desigual de filmes dublados por cinema, vemos que a ideia de estigma, status e elite não se restringe aos bairros, e impõe uma coleção de sentimentos de pertencimento e não-pertencimento que não são incomuns em experiências interculturais. A abordagem desse caso numa sala de aula, com o devido guiamento, deu aos alunos uma vista panorâmica de um fenômeno que, por vezes, pode ter sido incômoda, mas que, ao mesmo tempo, permitiu-lhes compreender um tempo e um espaço e imaginar futuros possíveis.


Considerações finais

Não há como negar que uma atividade como a que foi descrita neste texto tem um caráter político. Deparar-se com diferenças ao mesmo tempo tão marcantes e tão sutis, nos tira a todos do lugar-comum, do pensamento tentador que nos impele a acreditar que as coisas são como são. Nesse cenário, priorizar o debate cultural é favorecer a imaginação ativa, criativa e inconformada, e a sala de aula de línguas é, por natureza, espaço propício para esse exercício. Afinal, diante de um mundo em que indivíduos têm diferentes experiências de pertencimento, e numa perspectiva de ensino voltada não só para a comunicação, mas também para o entendimento entre pessoas, a utilidade do aprendizado de uma língua estará nas oportunidades que ela oferece para a educação política e, como bem observa Byram (2008) não se deve evitar essa responsabilidade.





*Bruno Lima has been a teacher at the Federal Institute of Rio Grande do Norte since 2008. He holds a PhD degree in Language Studies (UFRN) and, as a researcher, is interested in investigating intercultural experiences. He is also a board member of the ILE SIG.




Referências

ARAÚJO, F.F. Empresários urbanos e produção do espaço residencial: condomínios-clube na Zona Sul de Natal (RN). In: Revista Brasileira de Gestão Urbana. Natal: n.7, 2015.

BYRAM, M. From Foreign Language Education to Education for Intercultural Citizenship. Clevedon: Multilingual Matters, 2008.

HARMER, J. How to Teach English. Londres: Pearson, 1997.

KRAMSCH, C. The Cultural Component of Language Teaching. In: Zeitschrift für Interkulturellen Fremdsprachenunterricht. Amsterdã, v.2, n.1, 1996. Disponível em: http://www.spz.tu-armstadt.de/projekt_ejournal/jg_01_2/beitrag/kramsch2.htm. Acesso em: 13 set 2021.

PILLER, I. Intercultural Communication: A Critical Introduction. Edinburgo: Edinburgh University Press, 2011.

LIVRO RECOMENDADO