CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO DE PROFESSORES NAS ÁREAS LINGUÍSTICAS E METODOLÓGICA

Educação 2021 – pensar a transição em um momento de incertezas

By - Maria Beatriz Catelan Cunha

Finalmente, chegamos em 2021. Novos planos e novas expectativas. Após um período, cuja normalidade foi o distanciamento social, espera-se que o ano novo caminhe para um melhor cenário global. Busca-se a queda do contágio da COVID-19 com as tão aguardadas vacinas e, dessa forma, um possível retorno ao estilo de vida que conhecíamos antes da propagação generalizada do vírus. No entanto, é necessário considerarmos que continuaremos vivendo em um panorama de incertezas por um tempo – afinal, estamos adentrando uma segunda onda de contágio – e ponderarmos sobre um ponto. No âmbito educacional, será que retornaremos às práticas pedagógicas as quais nos apegávamos anteriormente ou trilharemos caminhos que as integrem ao que foi aprendido durante o período de fechamento das escolas? Não há respostas para tal questionamento, somente reflexões.

Em uma breve análise, o ano de 2020 foi marcado pelos efeitos do surto pandêmico da COVID-19. Práticas de isolamento, o uso obrigatório de máscaras de proteção em espaços coletivos e políticas de higienização foram implementadas como parte do nosso cotidiano. Setores da economia foram afetados de diferentes maneiras com a limitação de funcionamento dos estabelecimentos comerciais e das restrições internacionais. E, por sua vez, o setor educacional sofreu uma mudança drástica com a migração das aulas presenciais para o ambiente virtual. Aprendizado, adaptação e resiliência têm sido palavras frequentemente relacionadas à Educação durante a pandemia. Gestores, educadores e estudantes saíram de suas rotinas costumeiras e foram inseridos em um contexto desconhecido. A tecnologia tornou-se ferramenta de ensino e interação. Termos como aulas síncronas, aulas assíncronas e ensino híbrido foram implementados, às vezes de forma equivocada, para caracterizar as práticas pedagógicas realizadas virtualmente.

Sabe-se, ao certo, que professores tiveram que se reinventar: aprenderam a usar ferramentas tecnológicas; gravaram e editaram vídeos com conteúdo e propostas de atividades; conheceram novos aplicativos; acompanharam os alunos à distância; e lidaram com as próprias questões emocionais e familiares. Para os estudantes também não foi um período fácil. Eles necessitaram de autonomia e organização para acompanhar os estudos, além de sofrerem com a falta de socialização com os pares. Enfim, 2020 nos trouxe muitos desafios. E em 2021, não será diferente. No ano que se inicia, o principal ponto de debate é o retorno das atividades escolares presenciais. Com a elevação do contágio, algumas nações europeias retrocederam na decisão de manter escolas abertas, porém, em alguns estados brasileiros, a abertura das escolas da rede pública estadual e municipal acontecerá, até o presente momento, no mês de fevereiro. O reestabelecimento das aulas presenciais não será uma novidade para todos os docentes, pois algumas instituições de ensino da rede privada ensaiaram a volta às aulas seguindo protocolos de segurança e revezamento de alunos no segundo semestre do ano passado.

As adversidades e preocupações dos professores que tiveram a experiência do retorno presencial serão realidade para muitos outros profissionais a partir do próximo mês. A insegurança de um possível contágio e a verificação do cumprimento dos protocolos de higiene por todos que interagem no ambiente escolar farão parte do cotidiano de forma sistêmica. A confusão no posicionamento para a câmera, a preocupação com a projeção visual do conteúdo e das propostas de trabalho, a checagem do áudio e o controle dos ruídos externos serão componentes essenciais do planejamento de cada aula, principalmente, no caso das transmissões ao vivo para a parcela de alunos que estará em casa.

Em paralelo à questão de funcionalidade da abertura das escolas, tópicos metodológicos são frequentemente associados à discussão. A implementação de práticas de Ensino Híbrido, a mudança na visão de avaliação e o trabalho com as competências socioemocionais dos alunos são apenas alguns temas que merecem atenção. Durante o Ensino Remoto Emergencial, a transposição da sala de aula para o ambiente virtual aconteceu através de aulas síncronas, para os que têm acesso a recursos tecnológicos, e através do envio de atividades que seriam realizadas de forma assíncrona. Sendo assim, observou-se a substituição da lousa e do caderno pelo computador, mas, na maioria das vezes, a aula expositiva centralizada no papel do professor permaneceu a mesma. O Ensino Híbrido caracteriza-se por mais do que foi feito até agora e apresenta-se como uma oportunidade para repensarmos os papéis das tecnologias digitais, dos professores e dos alunos. A integração de recursos digitais com a sala de aula presencial tende a favorecer a personalização do ensino e a interação entre pares para o desenvolvimento de habilidades e competências (Bacich, 2020). Ao partirmos do pressuposto de que cada sujeito é único e aprende de forma distinta, entendemos, portanto, que nossos alunos são capazes de pesquisar, pensar criticamente, debater e solucionar problemas. Reconhecer o papel dos estudantes como produtores ativos de conhecimento e do educador como mediador possibilita que o virtual e o presencial se unifiquem e sejam ferramentas importantes para a formação integral e para o aprendizado.

A avaliação do que foi trabalhado durante a pandemia também se modificou e ainda precisa ser repensada ao validarmos estratégias diferenciadas no processo de ensino e aprendizagem. O Ensino Remoto trouxe o uso do computador e das tecnologias digitais e, como consequência, o sistema avaliativo somativo tradicional através de uma prova em papel teve que ser substituído por outros tipos de verificação. Questionários rápidos, gamificação, apresentações em grupo e produções autorais (escritas e artísticas) converteram-se em instrumentos de avaliação formativa possíveis para que os docentes conseguissem criar um panorama de habilidades essenciais e objetivos atingidos e não-atingidos.

A integração virtual-presencial que acontecerá, ao menos em parte do ano letivo de 2021, exigirá critérios avaliativos formativos que sejam condizentes com a nova realidade. Pesquisas, debates, projetos com rubricas avaliativas, avaliação de pares e autoavaliação são caminhos para a personalização do processo e para o desenvolvimento da autonomia do aluno, que permanecerá estudando por conta própria nos momentos em que assistir aulas de casa.

O período de Ensino Remoto reforçou, ainda, a necessidade das competências socioemocionais, pois a autonomia, a organização e o controle emocional mostraram-se de suma importância. No contexto da retomada das aulas presenciais, saber escutar e interagir serão outras habilidades significativas. Portanto, ao partirmos do conceito da formação integral dos estudantes, aspectos socioemocionais tornam-se essenciais para os currículos escolares. A pauta das competências não-cognitivas não foi lançada com a pandemia, pois elas integram a Base Nacional Comum Curricular.

Dentro das dez competências gerais da BNCC, cinco delas abarcam o desenvolvimento socioemocional. Da sexta a décima competência, abordam-se núcleos temáticos centrados na valorização da diversidade e respeito aos direitos humanos; argumentação com base em informações confiáveis; autoconhecimento e reconhecimento de emoções; exercícios da empatia e do diálogo para cooperação e resolução de conflitos; e a tomada de decisão embasada em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários (BNCC, 2018). Enfim, prioriza-se a construção de um sujeito autônomo, responsável, resiliente, determinado e que pense criticamente. Observa-se, assim, que os três tópicos levantados estão interligados. O desenvolvimento de competências socioemocionais auxiliaria na implementação de estratégias de Ensino Híbrido ao formar estudantes capazes de agirem como protagonistas dos próprios processos de aprendizagem e de reconhecerem suas potencialidades e dificuldades durante os processos avaliativos.

Por fim, é inegável que a COVID-19, o fechamento das escolas e o Ensino Remoto mexeram com as estruturas do sistema educacional que conhecíamos. Metodologias ativas de aprendizagem, valorização das potencialidades individuais, o uso de tecnologias digitais como ferramenta de ensino e um currículo baseado em habilidades e competências – inclusive as não-cognitivas – eram pesquisados e problematizados, porém, instituições de ensino ensaiavam a implementação de tais estudos. A pandemia, de certa forma, forçou mudanças significativas e, o que anteriormente era teoria, transformou-se em prática diária. O ano de 2021 ainda é incerto em muitas esferas, porém, os desafios para a Educação durante e no pós-pandemia são uma certeza.




Referências:
Bacich, Lilian. 2020. Ensino híbrido: muito mais do que unir aulas presenciais e remotas. Disponível em: https://lilianbacich.com/2020/06/06/ensino-hibrido-muito-mais-do-que-unir-aulas-presenciais-e-remotas/. Acesso em: 07/01/2021.

Base Nacional Comum Curricular. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#introducao. Acesso em: 11/01/2021.




BIO:
Maria Beatriz Catelan Cunha é professora há 11 anos e, atualmente, é professora de História e Língua Portuguesa. É também coordenadora de projetos nas áreas de Língua Estrangeira e Ciências Humanas. Graduada em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e finalizando o curso de Letras, também cursou especialização em Educação Socioemocional (IBFE) e MBA em Gestão Escolar (USP/ESALQ).

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