CAPACITAÇÃO E TREINAMENTO DE PROFESSORES NAS ÁREAS LINGUÍSTICAS E METODOLÓGICA

Mundo escolar pós-pandemia – reflexões sobre o que vai e o que fica

Juliana Tavares

O ano é 2020 e o mês é julho. São quase quatro meses sem aulas presenciais e certamente um hiato do tipo é inédito para todos nós. Apesar de no momento termos um grande número de contaminados e mortos pela COVID-19, queremos com fé acreditar que a pandemia está arrefecendo e que logo voltaremos ao normal. Há meses estamos em casa – as crianças estão em casa, os pais estão em casa, tudo é cansativo. Como professores, queremos a sala de aula de volta porque ela representa a normalidade e é o lugar mais consolidado para o educar, principalmente os pequenos. Não há aprendizado sem afeto, sem o contato, sem a interação e a escola viabiliza isso. Além disso, nossa vida e privacidade foram invadidas, assim como a das famílias de nossos estudantes. Os limites entre o pessoal e o profissional se dissolveram e a volta às aulas presenciais hoje representa o trabalho saindo de nossas casas para podermos sair para o trabalho. Essa vontade vai aumentando e nas últimas semanas já estamos percebendo uma nova narrativa se tornar mais frequente: a do que será após a pandemia, a do novo normal na escola.

A cada dia que passa, o retorno se torna uma preocupação maior. Há muitas escolas planejando esse retorno porque, para elas, o pior já passou: após o choque inicial, a conscientização de nosso despreparo e a tomada de ações emergenciais, professores, coordenadores podem dizer que o momento é de navegar (a questão aqui não é se estamos navegando em águas calmas ou agitadas). Aproveito aqui para deixar claro que falo de um universo que não reflete a realidade do restante do país, mas que é a minha realidade – as escolas particulares, de uma forma ou de outra aos poucos se adaptaram o quanto foi possível ao contexto emergencial. O resultado disso é que tanto estudantes quanto professores aos poucos se acostumaram a esse novo “normal”. Teacher, vai ter live hoje? Live definitivamente passará a ser um novo vocábulo em nossos dicionários.

De volta à questão do retorno, a verdade é que ninguém sabe ao certo como vai ser. Não sabemos nem mesmo se esse retorno irá durar muito tempo quando ocorrer, já que se espera várias ondas de contágio até que uma vacina esteja pronta. O que sabemos é que nada será como antes e que muitos aspectos serão diferentes por duas razões: primeiro, porque nosso aprendizado durante a pandemia nos terá mostrado caminhos mais interessantes e eles serão incorporados à nossa prática de maneira definitiva; segundo, porque o mesmo aprendizado nos mostrará que certas coisas podem ser esquecidas porque simplesmente não funcionam.

Pensando nisso, eu dividi esses aprendizados em duas listas: a das coisas queremos que permaneçam na escola que virá e a das coisas que não queremos de forma nenhuma.

As coisas que não funcionarão mais no ensino pós pandemia e as que surgiram apenas para ilustrar o quanto são ineficientes fazem parte da primeira lista. Na segunda lista adicionei o que não valorizávamos até perder, além das mudanças que vieram com a educação remota, mas que são tão boas que precisam continuar na educação presencial. Meu critério para essa lista é o de observação e de experiência dentro de um contexto específico – aquele privilegiado tanto pelas condições financeiras quanto pela qualidade e preparo dos docentes envolvidos. Tenho absoluta consciência de que esse critério não se aplica a outras vivências, especialmente quando se trata de escolas da rede pública em lugares onde a situação é precária em todos os aspectos – esse assunto merece outro texto e será abordado em tempo oportuno. Afinal de contas, em um país onde mais de 40% das escolas públicas não possui condições básicas de saneamento, achar a falta de plataformas user friendly um problema comum é pura falta de percepção da realidade ao redor.

A lista do “já vai tarde”

- Supervisão parental excessiva – Acho que a maioria dos professores que se preocupava com a falta de supervisão dos pais e que sempre incentivou um maior envolvimento deles na educação do estudante se deparou com uma situação de extremo oposto nesta pandemia. Os relatos de excesso foram frequentes entre os professores. Em casa, os pais tiveram mais tempo de acompanhar a educação dos filhos. Sem experiência, muitos deles exageraram, vigiando as aulas e esperando o menor deslize do professor para verbalizar sua insatisfação junto a instâncias “superiores”. Os grupos de Whatsapp entraram em polvorosa e o número de especialistas em educação remota se multiplicou. Se juntarmos os ânimos alterados de todas as partes à essa equação, o resultado é desastroso. A lição a ser levada é que supervisionar o estudante é essencial, mas os exageros prejudicam muito sua autonomia. Além disso, reforça-se a necessidade de uma parceria saudável entre a escola e a família.

- Solidão – Saudades de aglomerar na sala dos professores, né minha filha? Trabalhar sozinho é exaustivo, solitário e desmotivador para quem adora o contato com pessoas – caso de nove em cada dez professores. O trabalho em equipe levanta os ânimos, renova nossas energias, contribui com nossa criatividade e nos ajuda a resolver dilemas do dia a dia. Somente as conversas durante os intervalos, o cafezinho, os almoços e as reuniões pedagógicas podem viabilizar essa interação de forma eficiente.

- Educação infantil remota – A verdade é dura, mas deve ser dita. Ensinar crianças pequenas remotamente não funciona. Ao menos não da forma que imaginávamos no início. Após tentativas e erros, vimos que as crianças, por mais que gostem da tela, não conseguem permanecer nela por muito tempo. A abordagem deve ser totalmente diferente e ainda assim, a sensação que temos é que não estamos atingindo o estudante da mesma maneira. Isso porque, como já dito antes, a educação infantil depende da interação e do afeto mais do que em qualquer outra fase. Isso prova que educação remota infantil fora do contexto emergencial é ideia de quem nunca foi professor de crianças na vida.

- Sistema de avaliação obsoleto – Devo dizer que a pandemia ensinou, a duras penas, que prova não avalia ninguém – algo que não é novidade, mas que as escolas em geral possuem muita dificuldade em se desapegar. Ao nos depararmos com um contexto no qual é impossível aplicar provas da maneira tradicional, os professores se viram obrigados a tentar formas diferentes de avaliação. Com isso, muitos se viram livres de um sistema excludente e antigo, que apenas ranqueia e pouco contribui para a evolução do estudante. Celebremos esse aprendizado!

A lista do que fica

- Tech tools – existem ferramentas para nos ajudar em praticamente tudo o que quisermos fazer em nossas aulas. Finalmente descobrimos isso, finalmente tivemos que aprender a procurá-las, a usá-las e a fazê-las trabalharem para nós. Perder o medo de tentar usar ferramentas, de se aventurar a testá-las para então decidir as melhores escolhas pode ser considerado um dos grandes aprendizados dessa pandemia. Incorporar a tecnologia na sala de aula depende muito da coragem do professor e de sua fé na eficiência delas. A educação remota mostrou a muitos de nós que a tecnologia pode sim ser nossa grande aliada.

- Agência – Agência pode ter diversos significados e abranger diferentes aspectos. Aqui penso na agência como definiu Eduardo Francini em artigo para o Portal Teach-in: aquela dos estudantes como “construtores de sentidos, verdadeiros “curadores” dos conhecimentos”. No caso, a agência se aplica também ao professor que entendeu que a apostila não era suficiente para dar conta do recado (nem em condições “normais” de ensino) e tomou as rédeas como curador do conhecimento. Trouxe aos estudantes outras formas de buscar conteúdos, debateu as melhores soluções para problemas que foram surgindo ao longo do caminho e procurou formas de atingir a todos. O estudante, por sua vez, teve que aprender a organizar sua rotina, a trabalhar com autonomia e buscar melhores formas de aprender sem que o professor estivesse sempre ao seu lado.

- Encontros online – Se por um lado sentimos muita falta de nos encontrar para debater e trocar ideias, aprendemos que nossos encontros podem ser multiplicados de forma muito prática através de reuniões remotas. No contexto da pandemia, elas apenas substituíram os encontros presenciais, mas por que não nos beneficiarmos de ambos os formatos? Por que não agregar aquilo que facilita nossa vida e otimiza nosso tempo?

- Aula invertida – se há uma coisa que aprendemos rapidamente na educação remota foi a ineficiência de lives com mais de 40 minutos. Então, para aproveitarmos da melhor maneira o tempo de interação síncrona com nossos estudantes, foi preciso otimizar o conteúdo, prescrever leituras, vídeos e atividades prévias para que as dúvidas, questionamentos e debates fossem abordados durante as lives. Apesar da aula invertida existir há bastante tempo, acho que somente agora foi possível vislumbrar o seu verdadeiro potencial de uma forma mais prolífera. Agora é não deixar a peteca cair e levar para o contexto presencial todas as vantagens dessa abordagem, especialmente para estudantes do Ensino Médio.

Ambas as listas possuem espaço para muito mais. O que está aqui é apenas um recorte e, como já disse antes, baseado em minha experiência, que nem de longe pode ser considerada igual a de todos. Entretanto, existe uma lição para todos nós, independente do contexto no qual trabalhamos. A escola faz falta. Que a pandemia possa trazer um pouco mais de valorização ao educador – sem ele, os computadores não são nada.

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